Inferno. É a minha cabeça, minha casa. Um mar de caos
constante onde a paz é uma terra que nunca parece chegar. Eu sou idiota, sou
ingrata, ignorante, rude, arrogante, grossa, má, inútil, preguiçosa, uma
decepção.
Mas ela não. Ela é perfeita ― apesar de saber que não ―, é
sempre a certa e a dona máxima dessa verdade. Eu sou só um grão de areia
insignificante enquanto ela pisa em mim. Pisa em mim e se faz de vítima do que
acontece ao redor.
Inferno é o nome desse navio. Caos é o mar, bravo, inquieto
e indomável. A Paz é um lugar maravilhoso, mas um mito, como Atlântida. Eu sou
a vergonha, personificação da insolência e desobediência.
Ela é quem comanda esse navio, enquanto eu estou presa na
prancha sujeita a balas de canhão que me são atiradas todos os dias por ela,
mas ela não vê. A ponta de sua espada está constantemente no meu flanco, mas
ela se recusa a enxergar o sangue que mancha minha camisa por causa disso.
Embaixo de mim nadam tubarões, o nome de sua raça é Passado.
Esses tubarões me aterrorizam, mas não são tão angustiantes quanto as bolas de
canhão e a ponta de sua espada, camuflados com palavras de falso carinho e boas
intenções. Os Passados são menos perigosos do que Ela, pelo menos é o que
parece para mim. Ela não vê que me fere, me magoa, porque na visão dela sou só
mais um monstro, uma aberração incurável, sem sentimentos.
Minha “ousadia” é um pecado. Minha individualidade, um
crime. Como dona da verdade, tudo que não segue suas ordens é errado. A corda
que me prende na prancha cada dia se afrouxa mais, e logo estarei me segurando
pelas pontas dos dedos, apenas com minha própria força.
Outros navios passam por perto, mas nenhum se aproxima o
suficiente para conseguir me tirar dessa situação. O Inferno é muito poderoso,
alguns comandantes e até tripulantes concordam com sua capitã.
De repente, os Passados se tornam tão acolhedores e
agradáveis que quero me jogar em suas presas, deixá-los rasgar minha carne
parece um jeito tranquilo de morrer. Doeria menos que continuar ali. Eu não
aguento mais. Não aguentarei por muito tempo, minha força se esvai junto com o
sangue que me deixa aos poucos pela ponta de sua espada.
Mas Ela é a capitã, a única e máxima verdade, a juíza e a
carrasca. Cega, como a justiça, mas não por tratar todos com igualdade, e sim
por se recusar a ver o que causa. Não que as consequências de seus atos para
comigo sejam relevantes. Eu sou apenas uma coisa sem valor e esperança de
redenção. Um peso desnecessário que só incomoda. Um arrependimento em forma
física. Só isso.
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