Havia sangue derramado por todo o lugar. Era algo inevitável, deviam saber disso.
As ferramentas estavam espalhadas, os corpos jogados de qualquer maneira pelo cômodo, uma risada era o único som que restava ali.
Como tudo havia chegado àquele ponto? De que maneira tantos indivíduos haviam se tornado apenas carne fria e morta, suscetível a putrefação? Qual era a verdadeira razão para aquilo tudo?
A responsável pelo massacre se encontrava deitada numa poça de sangue, brincando como uma criança brinca na lama, rindo como uma. Ela se banhava no sangue de suas vítimas não tão inocentes assim, divertindo-se, deliciando-se com o resultado de suas ações. Sentindo-se a maior justiceira já enviada a esse mundo.
Quem saberia dizer que ela não era? Justiça é algo relativo, assim como o conceito de certo e errado. Quem era sábio o suficiente para dizer que o que ela fazia era errado?
Todos que se atreveram contestá-la tiveram o mesmo destino que suas principais vítimas.
Ela lambeu o líquido escarlate de seus dedos, sorrindo com seus caninos protuberantes. Aquilo fazia seu coração adormecido palpitar, era a mais nobre de suas obras. A mais saborosa de suas refeições. Chifres surgiram em sua fronte e logo uma cauda era também visível em seu corpo. A menina gargalhou, se levantando e direcionando-se a outro corpo, ainda fresco, atacando seu peito e se alimentando de seu coração.
Logo o corpo daquele que outrora foi uma pessoa comum em sociedade, mas alguém não tão moralmente bom fora dela se tornou apenas uma carcaça de pele e ossos. Ela ainda ria em apreciação ao que fizera, Era quase contagiante.
Atrás dela surgiu alguém, com as mesmas características recentemente adquiridas por ela, mas visivelmente mais velha, ou pelo menos seu corpo físico era mais desenvolvido do que o da primeira.
A segunda a impediu de continuar se alimentando dos corpos destroçados, causando revolta na menor, que resmungou e esperneou, se sujando ainda mais de sangue no processo. Não que isso fosse um problema para ela. Estava mais para um prazer.
Por fim a maior conseguiu convencê-la de deixar o lugar, abandonando a construção com apenas um sinal de que elas estavam ali junto aos corpos dos quais a mais nova havia brincado e se deliciado pedaço por pedaço,
Uma pegada de seu corpo já quase completamente mutado, agora mais animalesco do que antes. O corpo coberto por escamas, duras como pedra. Os olhos esticados, amarelos e sagazes como de um gato, mas ainda maiores. Garras brancas e resistentes como marfim,
E acima de tudo, asas gigantes cobertas de escamas negras. Seus corpos monstruosos se juntaram e se tornaram apenas um, trocando o prédio pelos céus enquanto o sol começava a se mostrar para o mundo.
Assim tudo começou, e assim tudo terminaria.

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15/12/2014